Crônicas de Riverview - Parte 22 - Um violinista no telhado*

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     Ver a neve em livros não se comparava com a visão real, Lúcia estava extasiada com tanta beleza e também surpresa com tanto frio, mas Yuri preparou seu enxoval para Aurora Skies com muito carinho, vários casacos de pele, toucas, cachecóis, estolas, regalos, tudo para que ela sofresse o mínimo no frio. Foi recebida de forma calorosa pela família, a sogra Ivone juntamente com sua filha o genro e neta, assim que pôde e o clima ficou propício foi fazer o que queria desde que chegou, bonecos de neve, pois Yuri já havia explicado que a temperatura tem que estar bem baixa para ficarem bons, estava na sua primeira empreitada desajeitada com a neve quando sentiu que alguém a observava, quando olhou viu que um rosto jovial e matreiro ria de seu árduo trabalho, era Nicolay que se aproximou dela com o ar mais adoravelmente zombeteiro que já tinha visto, e depois de se apresentar se pôs a ajudar e ensinar a arte de fazer bonecos de neve. Durante o trabalho ou brincadeira pouco foi falado, nada pessoal apenas sobre frio e neve, então ela começou a se sentir deslocada e sem graça, ali bem na sua frente estava o cara que a dispensou e ele não parecia estar sentindo nenhum desconforto, na verdade Nicolay parecia ser o tipo de pessoa que nunca se sentiria desconfortável seja qual fosse a situação, Lúcia lembrou de seus planos anteriores, podia ali mesmo começar com joguinhos e se insinuar, ou mesmo ir direto ao ponto e perguntar _ O que achou de minha pessoa. Porque não quis se casar comigo?... Mas só queria uma coisa, sair dali, foi quando seu marido apareceu e ela se sentiu a salvo de novo, já havia notado que os vários dias que passou com ele na estrada fizeram se acostumar com sua presença, ela se sentia segura e confortável ao seu lado.
_E aí caçula? Vi que já conheceu minha linda esposa.
_Fala meu velho, Linda mesmo,  é realmente uma princesa como está lá nos contos de fada, pena que o beijo dela não te fez deixar de ser um sapo.
_ ah é, sapo eu? Tu vai ver.
E assim se começou uma guerra e bolas de neve, Lúcia até que queria participar mas de repente se deu conta de que não conseguia se mover, que suas mãos estavam duras, ela não sentia o frio que deveria sentir, só não sentia nada, precisou ser carregada  para dentro, e se aquecendo próximo a lareira foi voltando ao normal, no outro dia experimentou outro efeito do frio, seu rosto estava vermelho de queimaduras, a pele ardia um pouco e estava sensível, foi aconselhada a ficar em casa pelo menos uns dois dias até sua pele melhorar, Nicolay prometeu fazer uma loção protetora bem concentrada para sua pele.







       Os dois dias na verdade acabaram sendo uma semana, pois sua pele parecia ser mais sensível do que parecia, e antes de melhorar  piorou bastante, mas quando pode sair foi dar um passeio com Alexandra e Caitriona, a pequena cait, para conhecer a cidade; em outro dia Yuri a levou ao um lugar que gostou bastante, o parque do lago, era o local mais movimentado da cidade pois era propício para patinação, mas o lago ainda não estava bom apesar de estar até nevando, ele disse que dali uns três ou quatro dias estaria perfeito, e assim foi. O lago congelado cheio de pessoas patinando era uma imagem maravilhosa, mas patinar se mostrou ser a coisa mais difícil do mundo, equilibrar em cima de duas meras lâminas de metal era impossível, depois de algumas tentativas Lúcia decidiu que seria apenas uma espectadora, e parecia que todos na cidade sabiam patinar, era como se nascessem sabendo; duas moças que ela havia visto patinando muito bem se aproximaram juntamente com Nicolay, uma delas assim que chegou se jogou nos braços de Yuri.
_ Que saudade do meu professor preferido quanto tempo Yuri querido, só de pensar que vai embora e nunca mais vou vê-lo meu coração fica apertado e tenho vontade de chorar.
_ Olá nick, quero te apresentar minha esposa , Princesa Lúcia esta é Nikita e a outra é a Abigail.
As duas garotas fizeram o cumprimento de praxe mas nick logo voltou sua atenção para o professor, e Lúcia conversou um pouco com Abigail que se mostrou muito simpática e atenciosa.
_ E então o professor conseguiu te ensinar a patinar, ele é o melhor!
_ Mesmo? E foi ele que ensinou todas as garotas da cidade? Achei que isso seria mais coisa de Nicolay? Disse olhando para uma nick que não largava um tal professor.
_ Ô não cunhada, essa arte eu não domino tão bem, eu ensino as garotas uma de outro tipo, mas elas precisam ser mais velhas um pouco_ Disse dando uma piscadinha.






      Durante os dias que se passaram Yuri estava sempre presente, saiam ou ficavam em casa frente a lareira junto à família que era muito alegre, sem falar que se come muito no frio, sempre tem um chá seguido de vários quitutes, mas apenas uma vez  ele saiu para caçar, isso porque seus companheiros insistiram pois  seria uma despedida, e ele ficou três dias fora, lúcia se preocupou e sentiu sua falta na hora das refeições e principalmente no quarto, apesar de ele dormir em um colchão no chão, sempre conversavam muito antes de dormir e ela adorava olha-lo dormindo; assim que ele chegou ela perguntou porque só ele gostava de caçar na família sendo que seu pai morreu durante uma.
_ Meu pai adorava caçar, e ele me levava sempre que podia, para mim é uma lembrança de algo só nosso, Nicolay era muito pequeno por isso ela não se apegou a prática, e meu cunhado Wagner não vai porque xanda não deixa, só quando é rápido e aqui por perto mesmo. 
_ Mas como seu pai morreu se era acostumado?
_ Bem, papai era um bom homem mas muito espirituoso e teimoso, já é um costume aqui e todos sabem, não se caça sozinho, mas um dia ele brigou com mamãe e quis ir para espairecer as idéias, o tempo não estava bom e tentaram convencê-lo a não ir, mas ele foi assim mesmo. O tempo que já não estava bom piorou de repente, ele se distanciou muito quebrou a perna, e sozinho não podia construir  um iglu para esperar a tempo melhorar, quando  a tempestade passou os homens foram atrás dele e o encontraram morto, minha mãe não tem culpa alguma, mas se culpa assim mesmo.
_ Sinto muito Yuri_ Lúcia queria muito acariciá-lo chamar para sua cama, começava a ter pena dele deitado ali naquele chão, mas não sabia como fazer isso, por mais que ensaiasse não conseguia, pensou um pouco e disse de supetão antes que perdesse a coragem.
_ Quer dormir na cama hoje? Sei que ficou dias na caçada dormindo desconfortável em barraca... Se quiser eu durmo no chão.
_ Lúcia, eu nunca vou te deixar dormir no chão, e acredite não é desconfortável aqui porque estou acostumado, e vou ser sincero, deitar perto de você só para dormir... Eu prefiro ficar aqui. 
Para quem sabe ler pingo é letra, Lúcia não ousou dizer mais nada e só pensou com muita raiva _ Ele podia pelo menos tentar fazê-la mudar de ideia, ele que tinha que tomar iniciativa não ela_ Lúcia fingiu dormir rápido e Yuri também por motivos óbvios, pensou que Lúcia ainda não estava pronta, ele a queria e desejava com ardor mas iria esperar ela querer com a mesma intensidade.




      Lúcia foi conhecer o laboratório dos irmãos Bicudo que agora será só de Nicolay, o espaço era no porão da própria casa, mas era muito bem feito e cheio de equipamentos modernos, tudo de novidade estava lá, e algumas peças eram destinadas a Riverview, haviam máquinas de escrever, de tirar foto, fonógrafo, um maquina de projetar imagens e uma banheiro todo feito no maquinário a vapor, a água já saia quente mas Lúcia achou muito feio ter um banheiro todo de ferro e lata. Nicolay a presenteou com a prometida loção.
_As festas de fim de ano se aproximam e esta pele de princesa precisa estar perfeita. Passe um pouco ao acordar e quando for dormir pode caprichar.
_ Muito obrigada, realmente esse era assunto que me preocupava muito.
_ Cunhada, há algo que quero te falar, algo que deve ser falado entre nós dois, eu esperei porque não sabia como seria, eu e você, se pensar que seu marido deveria ser, eu... Nossa é estranho
_Sim, muito estranho mesmo _ Respondeu Lúcia e já emendou porque precisava desabafar. 
_ Foi um choque para mim na época, agora parece besteira quando lembro mas me senti, magoada acho... eu não encontro a palavra certa, me senti perdida pois sempre planejei isso e criei toda uma situação na minha imaginação, mas agora vejo que foi o certo, o que aconteceu foi o melhor, eu olho para você e vejo... Meu irmão Ed, a mesma jovialidade, não me imagino sua esposa.
_ Bem, eu te imagino como a esposa de meu irmão , mas sério, és bonita demais , se não fosse... Mas uma coisa eu sei, ainda não quero me casar e nem sei quando irei querer, mamãe quase enlouquece comigo mas, não me imagino preso a um relacionamento, ainda mais casar sem conhecer direito me desculpe, sei que um costume real mas não é para mim.
_ Bem, as referências que eu tenho são de casamentos assim, Pedro se apaixonou instantaneamente quando viu um retrato de Jádis ainda adolescente, Susana também só conheceu Caspian dias antes do casamento e se adoravam, eu via pois convivia com eles. Ed conhecia Kelly desde criança, acho que começaram a se gostar na adolescência, mas mesmo assim decidiram esperar  e namorar um pouco, lembro que fiquei muito brava com isso._ Disse sorrindo ao lembrar do escândalo que fez,
_ Bem, mas acabou tudo bem, espero de coração que você e meu mano venham a se amar muito, e que esse costume arcaico seja varrido da face da terra.
_Verdade,não vou querer isso para meus filhos.
_ Amém!





    Outro dia Lúcia foi conhecer a nova estufa, a antiga sempre foi de Yuri e da mãe, de quem herdou o jeito com plantas e animais, Yuri era o cientista voltado mais para a natureza, Nicolay engenharia de máquinas, a estufa era  muito bem cuidada e Yuri disse que a que ele iria fazer na casa deles em Riverview iria ser um mini jardim botânico, e ela não duvidava. Uma noite Lúcia precisou descer a cozinha e se encontrou com Nicolay na escada, tremendamente bêbado.
_O que vejo, uma fada? Uma encantadora e bela fadinha _ Ele balançava tanto que Lúcia temeu que rolasse escada abaixo e o ajudou a terminar de subir, estava levando-o até o quarto quando de repente ele a imprensou contra  a parede, e começou a cheirar seu pescoço.
_ Como é o cheiro de um fada? Sinto cheiro de... amêndoa, jasmim... hum pelo cheiro és uma ninfa?
Ele esfregava o nariz em seu pescoço e estava se tornando muito ousado
_ Deve ser o que colocou na minha loção, muito agradável eu sei, mas eu só sinto cheiro de álcool, pare agora Nicolay! _E o empurrou com toda a força que podia.
_ Compreendo, quem sou eu, um mero mortal para querer o amor de uma criatura mágica filha dos deuses?...
Ele lhe deu as costas e cambaleante foi para o quarto.





    Um certa manhã Lúcia se dirigia a cozinha e deparou com Nicolay na porta, ele apontou para cima e disse.
_ Nós dois embaixo de um visco tsc tsc tsc... Minha irmã adora fazer essas surpresinhas, fique esperta ela sempre muda de lugar, sei que esperavam pegar outro casal já que a coisa mais rara é eu acordar  tão cedo, então o que vamos fazer? Dá azar se não beijar e isso nós não queremos certo?
Então ele começou a gritar.
_ Yuri! Yuri onde cadê você estamos numa situação difícil aqui, aí está você, eu e sua querida esposa fomos pegos embaixo do visco por um infortúnio do destino, mas um beijo tem que acontecer, então irmão, beije sua esposa.
Lúcia não lembra exatamente como aconteceu, somente que estava contra a parede frente a frente com um par de olhos cor de mel olhando bem dentro dos dela, sentiu uma mão tocando seu rosto, então não viu mais nada, só sentiu, um boca, lábios macios e no final uma língua, ela se lembrava da barraca do beijo, não era nada parecido com aquilo.



    Então chegou o natal, os bicudos não eram religiosos então foi apenas um jantar para a família, depois da ceia ficaram na sala bebericando até altas horas, iriam abrir os presentes depois da meia noite, a pequena cait estava impaciente mas aguentou firme, foi tudo íntimo, familiar e agradável. No ano novo a celebração foi em um salão local, com várias famílias que sempre se reuniam para festejar, era uma tradição; antes da saírem veio um fotógrafo para registrar a entrada do novo membro da família e o primeiro natal do nova casal. O salão estava  elegantemente decorado, tinha músicos e uma pista de dança, dois ambientes tipo salas com sofás confortáveis para descansar, pois a festa iria durar até o amanhecer. Lúcia notou que Nicolay era o famoso Don Juan, e que garotas ficavam o tempo toda na sua cola, descaradamente, mas ela notou também que olhavam para Yuri mas com a diferença de que ele sempre foi sério, e elas apenas o desejavam a distância, e ela se sentiu muito feliz de poder mostrar a todas que ele era dela, só dela agora e para sempre. Mais tarde Nicolay veio se sentar com ela no sofá e começaram a conversar.
_Eu gostaria de pedir desculpas por aquela noite que cheguei meio bêbado, tá não precisa fazer essa cara, meio não, inteiro. Me desculpa?
_ Estava torcendo para não se lembrar.
_ Ah eu me lembro, essa de esquecer por causa de bebida é conversa fiada, a gente geralmente lembra de tudo. Lembro de belos olhos verdes iluminados por uma lanterna, de um cabelo e pele perfumados...
_ Ora, você ainda está sendo galanteador comigo!?
_ Me desculpe cunhada, é automático, eu vejo uma mulher encantadora e quando vejo já estou cortejando, é como eu as elogio, sem maldade, nem sempre há um interesse real e fica só no flerte mesmo.
_ E quando acontecer de se apaixonar como vai saber, se cortejar para você é um esporte?
_ Eu acho que saberei, bem eu espero saber
_ E sua amiga Abigail? Vi que tem um um carinho especial por ela.
_ Gail! Não, é só minha melhor amiga desde que me entendo por gente.
_ E você nunca tentou?
_Ô sim, claro que sim, mas ela quase me deu uma surra, disse que me conhecia muito bem e queria ser minha amiga para sempre e isso estragaria tudo, pensei e concordei, gosto muito daquela garota para perder seu respeito, e são poucas mulheres que me respeitam sabia?
Ela não conteve o riso.
_ Pode rir eu deixo, ninguém me respeita mesmo; e você, já se apaixonou por meu irmão?
_ Eu não esperava essa pergunta ainda mais vindo de você, porque me pergunta?
_ Porque me preocupo com os dois, e  é uma casamento real, você ia se casar comigo sem nem me conhecer, casou com ele conhecendo muito pouco, amor não é mágica, não nasce da noite para dia, é lógico que meu irmão se encantou com você a primeira vista, mas atração não é amor.
_ hum, acha que ele não me ama?
_ Não sei disso, mas enfeitiçado eu sei que ele está
_ Tá me chamando de bruxa?!
_ Bruxa nunca! Mas fada, sereia, ninfa sim.
_ Então eu não o enfeiticei, eu encantei
_ Então você admite!
 Os dois caíram na risada e Lúcia se percebeu feliz por ter Nicolay por cunhado e amigo, aquele tipo de amigo que sempre trará alegria.










     Na virada do ano Ivan soltou os tradicionais fogos e Lúcia quis ver de perto pois teria um ótima desculpa para  se agarrar ao "professor",  e depois disso não se soltou mais pelo resto da noite, no meio da madrugada Abigail que era violinista subiu ao telhado e tocou apenas para eles, e notou o olhar de admiração que Nicolay tinha para ela, não iria demorar a acontecer algo com esses dois, não mesmo. Quase ao amanhecer depois que todos desceram eles tinham o telhado só para eles, o céu  e as estrelas e todo um futuro de muitas emoções, ela não sabia se o que sentia era amor, mas era bom e ela queria aquele homem, e queria urgente.






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* Sim, o título é porque me lembrei do filme, nada original eu sei. mas adorei.
Sobre o filme aqui:



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